Blog Em Dia Com a Cidadania - por Marcia de Almeida

NA MEDALHA CHICO MENDES, A HISTÓRIA DE BEBETO BENEVIDES
02.04.2007 - 06:50 · deixe seu comentário · ler comentários (5)

Arquivo da família
Arquivo da família
Bebeto Benevides,1969

Bebeto, trinta e cinco anos de saudades

Nasceu em 28 de setembro (data de duas leis abolicionistas que precederam a Lei Áurea) no ano de 1942, na cidade de João Pessoa, Paraíba, terra onde o medo é tido como lenda, diz o pessoal da terra. Foi batizado no dia de São Francisco de Assis, dia 5 de outubro, com o nome de Luiz Alberto, cujo significado etimológico é ilustre defensor dos fracos. Mas por toda sua breve vida seria conhecido pelo apelido de Bebeto por seus familiares e amigos. Menos pela companheira Miriam, que o amou a ponto de compartilhar de sua vida e morte, mas só o conheceu com nome, adotado na clandestinidade, de José Carlos Rodrigues.

Foi o quarto filho dos oito de José Estácio Corrêa de Sá e Benevides, oficial do Exército e paraibano e de Jerusa Andrade de Sá e Benevides, professora, alagoana de nascimento e carioca por formação. Teria um vida marcada por mudanças constantes. Estes deslocamentos pelo Brasil nos tornaram menos bairristas: nem paraibanos, nem cariocas, nem pernambucanos ou paraenses, mas apenas brasileiros. Nosso chão era o Brasil: sua gente, seus costumes, seus sabores, seus sons e suas cores eram a nossa pátria. Sua alegria a nossa alegria, sua tristeza a nossa tristeza. Esta brasilidade, junto com a formação cristã e solidária que nos foi dada por nossos pais, determinariam as escolhas de Bebeto.

Toda nossa vida foi determinada por mudanças em função da carreira militar de nosso pai até sua morte em acidente aéreo em 10 de Março de 1959, durante uma missão militar, perto de Belém do Pará. A Bebeto, aos dezesseis anos, coube a dura tarefa de acompanhar os restos mortais de nosso pai para ser enterrado no Rio, por ser o mais velho em casa e porque nossa mãe estava doente. Este fato mudou completamente Bebeto amadurecendo-o de repente. Até então era um garoto interessado apenas em jogar futebol e namorar.

O Bebeto tinha muita gana para viver e aproveitar bem a vida. Desde menino tinha horror a desigualdades e injustiças. Detestava sair muito arrumado por causa de seus amigos pobres. Também questionava ordens arbitrárias. Era um líder nato. Sabia articular times, ganhar simpatias, atrair amigos e namoradas. Tinha um jeito meio tímido que encantava as meninas. Não perdia tempo em discussões estéreis. Só debatia com quem estava interessado em convencer. Estas características seriam desenvolvidas progressivamente, quando passou à militância sindical e estudantil. Seu senso de humor e bom astral transformava situações de conflito e até impasse, minimizando a dramaticidade, e, muitas vezes, reestabelecendo o diálogo.

Sua trajetória política se inicia por volta de 1964/1965, simultaneamente na Faculdade de Economia da atual UFRJ e no Sindicato dos Bancários do Estado da Guanabara, pois era funcionário concursado do BEG (hoje BANERJ). Então militava no PCB, de onde saiu, após o Racha de 66, juntamente com Apolônio de Carvalho e seus filhos Raul e Renê (que eram seus colegas na Economia), Mário Alves e tantos outros para fundar o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário). Fazia parte do Comitê Central deste partido em 1972, quando ocorreu a sua morte em suposto acidente rodoviário, em 8 de março, na estrada para Caruaru - PE, ao lado da esposa Miriam Lopes Verbena.

Eles foram enterrados na noite do dia seguinte no Cemitério Municipal de Caruaru, na presença do marido da irmã de Miriam, que foi presa no outro dia quando recebia visitas de pêsames. Esta prisão foi noticiada como seqüestro em manchete do “Diário de Pernambuco”, e serviu para alertar a nossa família sobre o que estava ocorrendo. Reynaldo, na qualidade de irmão mais velho e advogado nos processos que corriam nas três auditorias militares contra Bebeto, foi a Pernambuco e recebeu de volta alguns pertences que comprovavam que ele fora enterrado em Caruaru, com o nome de José Carlos Rodrigues. A cunhada dele continuava presa e fora preso também Ezequias da Rocha, o amigo de Miriam, que emprestara o carro. Algumas semanas depois, o corpo de Ezequias foi encontrado atirado num poço, com sinais de tortura. Em seguida, mais de quarenta pessoas foram presas. Em junho de 1972, o Governo Médici comemorava o fim do PCBR no Nordeste.

Em janeiro de 1977, quando fomos buscar os restos mortais de Bebeto e Miriam em Caruaru, estes tinham sumido devido a uma reforma que fora feita no cemitério, e até mesmo o livro de registro dos sepultamentos feitos em 1972 desapareceu. Em 1991, nova tentativa frustrada, só em 1995 o livro de registro do cemitério de 1972 reapareceu. Os nomes estavam lá, mas os restos mortais nunca pudemos recuperar. Por este motivo recorremos à Comissão de Mortos e Desaparecidos em vão. A última tentativa para o resgate do corpo foi a coleta de sangue para o banco de DNA, em 2006.

Durante os quase trinta anos de existência, marcados por muita luta e esperança de melhores dias, Bebeto conseguiu semear amizades por onde passou. Até hoje encontramos amigos e antigas namoradas que manifestam saudades. E a imagem que ficou na lembrança de todos é a do jovem brincalhão, botafoguense fanático, que sabia agradar as mulheres. Sua morte é chorada por seus irmãos e sobrinhos, primos, amigos de infãncia e juventude, a turma da República do Peru, os colegas da Economia e do Colégio Militar, os bancários do sindicato e do BEG, os companheiros de luta e toda sua enorme família espalhada pelo Brasil.

A ele foi dedicado o livro “Tirando o Capuz”, por Álvaro Caldas.

Há uma placa com seu nome numa sala da Faculdade de Economia da UFRJ, cujo curso teve de interromper por causa da perseguição política, e onde estava durante a invasão das tropas do Exército há quarenta anos.

Existe também uma rua com seu nome em Bangu, em lugar conhecido como Malvinas, cuja inauguração em 1987 foi assistida por todos os irmãos e sobrinhos, local que visitamos recentemente para as filmagens de um documentário do GTNM.

O irmão de Ezequias, o amigo que foi morto por emprestar um carro, ao receber uma medalha da Assembléia Legislativa de Pernambuco disse querer repartir esta homenagem conosco por causa de Bebeto e Míriam.

Agora é a nossa vez de partilharmos também saudades e esperanças de mudar este Brasil.

Nós, irmãos, sobrinhos, família e amigos de Bebeto, agradecemos ao Grupo Tortura Nunca Mais (GTMN) esta homenagem. Com quem queremos partilhar a esperança de uma Pátria mais justa, livre e solidária, e afirmar que enquanto vivermos esta será a nossa luta.


Rio de Janeiro, 30 de março de 2007

comentários
 
Marcia,

Excelente a inicitaiva do emdiacomacidadania!

Como amiga do querido companheiro Bebeto, querido companheiro desaparecido em misteriosas circunstâncias naquele ano de 72, devemos continuar exigindo a TOTAL abertura dos arquivos públicos e privados (em mãos de militares e outros agentes do Estado brasileiro q participaram de ações repressivas).
Ana Miranda · 2/4/2007 16:24



Bebebo foi um dos melhores amigos que tive na militância. Porque ele era mais do que um militante. Tinha humor, grandeza, e uma simpatia cativante. Aliava seriedade com desprendimento, sem jactância, o que não era fácil naqueles momentos de verdades absolutas. Cito ele na dedicatória do Tirando o Capuz e falo dele no livro porque sua presença e sua lembrança se tornaram marcantes.
Álvaro Caldas
Álvaro Caldas · 2/4/2007 21:28



Obrigada Marcia pelo carinho e rapidez de colocar para todos que não puderam estar presentes como foi emocionante a cerimônia. Como me disse um jovem hoje:você deve estar orgulhosa de ser irmã dele. Estou, mas saudosa principalmente. Sonia Benevides
Sonia Benevides · 2/4/2007 22:14



Obrigada Marcia pelo carinho e rapidez de colocar para todos que não puderam estar presentes como foi emocionante a cerimônia. Como me disse um jovem hoje:você deve estar orgulhosa de ser irmã dele. Estou, mas saudosa principalmente. Sonia Benevides
Sonia Benevides · 3/4/2007 01:52



Ana, Álvaro e Sônia: o site procurou fazer sua parte na denúncia e na homenagem ao Bebeto,uma saudade permanente. Abraço fraterno e solidário.
Marcia de Almeida · 3/4/2007 12:37

 

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