O PRÉ-SAL, A GEOFÍSICA E O MEC

O pré-sal, a geofísica e o MEC

Fernando Zaider


Em que pesem os excelentes serviços prestados, o Ministério da
Educação está prestes a cometer grave erro que poderá conduzir o país a
um atraso. Os membros do comitê responsável pelo projeto Referenciais
Nacionais de Cursos de Graduação, coordenado e conduzido dentro do MEC,
não devem saber a diferença entre geofísica e geologia e acreditam que
devem unificar os dois cursos de graduação num só, o de geologia.

Sem geofísicos, o petróleo abundante e de boa qualidade, que
tornaria o país um exportador de hidrocarbonetos, ficaria fadado a
permanecer oculto e intocado nas profundezas da camada do pré-sal. Não
é possível conhecer a geologia marinha sem a ajuda essencial da
geofísica.

Mas não é só na indústria do petróleo que os geofísicos podem atuar.
O setor mineral está aquecido para pesquisa exploratória. E,
especialmente em áreas cobertas por espessa vegetação, como a Amazônia,
região de difícil acesso por via terrestre, a geofísica aérea ganha em
agilidade e logística.

Atribui-se à geofísica a compreensão da estrutura interna do
planeta. Graças aos pesquisadores geofísicos, foi possível elaborar a
Teoria da Tectônica de Placas, amplamente aceita hoje e que explica as
causas de terremotos e tsunamis.

Diferentemente da geologia, que estuda a Terra a partir dos
afloramentos visíveis na superfície, os métodos geofísicos se baseiam
na medição e comparação de fenômenos físicos como eletricidade,
magnetismo, radioatividade, acústica, ótica, ondas, sísmica, gravidade,
entre outras medidas que nos permitem mapear e “enxergar” a
subsuperfície do planeta com grande precisão.

Não é só no Brasil que a falta de geofísicos qualificados preocupa.
No Reino Unido, por exemplo, devido a dificuldades para formar novos
geofísicos, a Associação Britânica de Geofísica faz uma série de
recomendações para assegurar o “fornecimento equilibrado de geofísicos
graduados, aptos a satisfazer as demandas de curto, médio e longo
prazos da indústria da energia em geral e do país”. Na introdução de um
estudo realizado pela entidade em 2006, Lorde Browne of Mandigley,
principal executivo do Grupo BP (British Petroleum), definiu a
geofísica como matéria ampla situada no ponto de encontro de muitas das
grandes ciências — física, astronomia, ciências planetárias, geologia,
ciências ambientais, oceanografia e meteorologia.

“As observações geofísicas são fundamentais para o nosso
entendimento da Terra e seu funcionamento. A geologia moderna é
amplamente baseada nessas observações”, afirmou o executivo do BP. E
foi além: “A geofísica é uma ferramenta essencial no armazenamento
seguro de lixo radioativo, monitoramento de tratados de banimento de
testes e armas nucleares, avaliação e mitigação de fenômenos naturais,
o sequestro de dióxido de carbono da atmosfera e a caracterização e
proteção das fontes de água do mundo. É a única maneira de investigar e
aprender sobre os processos e estruturas profundas da Terra e,
portanto, um suprimento de geofísicos é vital para o futuro da nação”.

A Academia Brasileira de Ciências manifestou sua preocupação ao
ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. “A decisão do MEC de
extinguir cursos de graduação em geofísica, colocando-os dentro dos
cursos de geologia, atinge profundamente os sete cursos em
funcionamento (IAG/USP, UFF, UFRN, UFBA, Unipampa, UFPA, UnB), sendo
que o mais antigo deles (USP) acaba de completar 25 anos de existência.”

Para 24 acadêmicos de Ciências da Terra e do Universo, a decisão do
MEC pode ser danosa ao desenvolvimento científico e tecnológico da
área. Há três novos cursos em fase de projeto nas universidades
Estadual Paulista (Unesp), Federal de Ouro Preto (Ufop) e Estadual de
Campinas (Unicamp), em vista da carência e grande procura por
profissionais da especialidade, motivada pelo incremento da atividade
da indústria do petróleo e da exploração mineral no Brasil.

A convergência de denominações em andamento no MEC, que pretende
atualizar e unificar as designações de milhares de cursos de graduação
que têm projetos pedagógicos e perfis semelhantes, mas com
nomenclaturas diferentes, está para cometer grave erro e poderá, se
vier a acabar com os cursos de geofísica, conduzir o país a um
retrocesso, freando a formação de profissionais capacitados para
atender à crescente demanda por serviços especializados e novos
pesquisadores em geofísica.

Publicado no Correio Braziliense (05/01/2010)
Autor: Fernando Zaider
O artigo foi reproduzido no Portal do Ministério do Planejamento, no Portal do Ministério da Fazenda, nos sites Jornal da Ciência (SBPC), Mundo Vestibular, Espaço UERN, Linear Clipping (cliente MEC) e Comunidade Exkola.
Envie por email  Imprima essa página


^ topo | < voltar